terça-feira, 21 de setembro de 2010

Não me Perguntes!


Neste meu último dia de folga no Alegrete, deixo aqui uma crônica do jornalista e escritor David Coimbra que muito me agrada e que desenha muito bem esse nosso bairrismo amor exarcebado por este chão.


Desfile Farroupilha do Alegrete/2010 - Foto: Márcia Pilar

Não me perguntes! 
            David Coimbra
     Meu pai era do Alegrete. Chamava-se Gaudêncio, nome bem alegretense. Pegava touro a unha, por Deus. Agarrava o bicho pelas guampas, derrubava-o na terra e o amarrava bem amarrado que escoiceada nenhuma o soltava.
     Meu amigo Amilton Cavalo é outro do Alegrete. O pai e a mãe dele também têm nomes gaudérios: Hormain e Oraides. Gaudêncio, Hormain e Oraides, ala fresca! Sei, por isso, que os alegretenses se acham especiais por serem alegretenses. O jornalista e professor Marques Leonan, mais um que se ufana de ter nascido nas quebradas do Inhanduí, sempre pergunta, quando alguém diz ser de lá:
- Mas tu és do Alegrete mesmo ou estás te exibindo?
E um dos nossos vice-presidentes aqui da RBS, o Afonso Motta, quando soube que meu pai se criou vendo o sol mergulhar no rio Ibirapuitã, me abraçou, comovido.
     - Eu sabia! - exclamava, batendo-me nas paletas. - Eu sabia!
     No Alegrete, quem não é jornalista é poeta. Ou derruba touro a unha. Ou é o maior contista do Brasil, como o Sérgio Faraco. Pois o Faraco, em priscas eras,
organizava o caderno literário da Gazeta de Alegrete. Da qual era editor-chefe um famosíssimo jornalista que ora refulge em Zero Hora, o Moisés Mendes. O Moisés era um guri, 18 anos de idade, e já luzia como editor. O Faraco, porém, dispunha de autonomia completa no caderno, ele decidia quem seria publicado ou não. Um leitor mandava um conto e o Faraco respondia através do jornal: "Tem condições de ser publicado, aguarde".
Ou: "Está fraco, vai para o arquivo-morto, tente melhorar".
Bom. Um dia, o Moisés escreveu um conto e mandou para o Faraco. Que só rosnou:
- Vai ser difícil.
O Moisés meio que perdeu as esperanças. Que fazer?...
Mas, meses depois, o Faraco chegou com a notícia:
    - Teu conto será publicado.
 O Moisés exaultou: - Que maravilha!
- Só que tem o seguinte - advertiu o Faraco: - Mudei o final.
O Moisés estacou: - Como assim, mudou o final?
- Mudei. O final é outro. Mudei – sentenciou o Faraco, e já se foi, nem deixando tempo para o Moisés argumentar.
    Coitado do Moisés ficou lá, a suspirar, pensando: o cara mudou o final do meu conto, ele estragou o meu conto... 
De fato, o conto saiu com final diferente. O Moisés não falou nada. Conformou-se. Tem o conto guardado até hoje, sente até algum orgulho dele. Afinal, foi um
conto arrematado pelo melhor do Brasil. Mas, o mais importante: um melhor do Brasil que é do Alegrete!

[Punto y basta!!!]

3 comentários:

  1. Ameeei o texto. Muitooo bom tem blog flor! beijoo saudades. Jamille

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  2. Aaah.. Obrigada, Jamille.
    A gente faz o que pode aqui..hehe.
    Saudades grandes tbm.

    bjs!

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  3. Pois é... tem gente que tem orgulho, né... fazer o quê. Para todas as circunstâncias: eu sou gaúcha.

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