terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

wannabe, Madonna

Exercendo o tráfico livre de palavras, reproduzo aqui um texto do jornalista da Folha de São Paulo, James Cimino. Depois de tanto tempo se 'inspirando' em Madonna, Lady Gaga pediu  uma garoa com vento após a divulgação da sua última música. Ah, agradecimento especial pra Cler que me colocou em contato com esse texto. Afinal, desde a primeira vez  que ouviram [e viram] a Rainha do Pop, todos querem ser como Madonna:

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"Eu nasci assim." A frase não é da canção Modinha para Gabriela, de Dorival Caymmi, imortalizada na voz de Gal Costa. É apenas o título do novo single de Lady Gaga (Born this Way), que acaba de vazar e já causa polêmica por lembrar Express Yourself, o hit de Madonna de 1989 que conclamava a geração oitentista a aceitar apenas o amor incondicional. A canção de Gaga, podem aguardar, vai ser um hit e não é tão ruim quanto se diz, mas trouxe ao Twitter um conflito de gerações. 

Quando tuitei que o novo single de Lady Gaga se chamava "Eu nasci assim: sem criatividade", um jovem seguidor me comoveu com um apelo ao respeito pela nova artista. Em vários "tweets", ele questionou o seguinte: "Qual o problema em deixar que a minha geração sinta tudo o que Madonna fez vocês sentirem? Será que na época de vocês não tinham pessoas criticando Madonna? Nós não temos o que vocês tiveram. É isso." 

A minha crítica não é especificamente a Lady Gaga, mesmo porque, no artigo "Lady Gaga e a Lojinha do Pop", eu festejava a nova diva pop justamente pela maneira criativa como fazia o pastiche dos ícones dos anos 1980 e 1990 em seus dois primeiros álbuns. No entanto, uma coisa se revela após o lançamento do novo single de Gaga e do último disco de Christina Aguilera: falta background a todas essas divas novatas. 

Madonna é fruto de uma geração modernista, que criava sentidos para expressar sua insatisfação contra a ideologia dominante, repressora, castradora. Estudou com a coreógrafa Martha Graham, conviveu com Basquiat e Andy Warhol, tirava notas altas na escola para conseguir dinheiro do pai e sempre usou a sedução feminina de forma a subjugar os homens. 

Foi para Nova York vinda do interior, diz a lenda, com US$ 35 no bolso, morou em espeluncas, trabalhou no Dunkin' Donuts, quebrou a cara e adquiriu experiência. Com base em sua educação católica e em toda a repressão que sofreu no seio familiar, criou sua obra-prima Like a Prayer. Pela necessidade de entender sua maternidade, criou Ray of Light; do medo da velhice e da nostalgia das pistas de dança dos anos 1970 nasceu Confessions on a Dance Floor. Da necessidade de ser dona de seu desejo sexual como são os homens, criou Erotica e Justify My Love, cujos vídeos primam pela sutileza e pelo sugestionamento sexual. 

Não há uma cena de nudez explícita nos dois vídeos, mas não houve menino daqueles anos 1990 que não corrido para o quarto após vê-la simulando masturbação em uma cama de veludo vermelho com os cônicos e icônicos corpetes de Jean-Paul Gaultier. "Eu soube que era gay quando vi 'Justify My Love' pela primeira vez", me disse certa vez um amigo. 

Já Lady Gaga, Britney e Aguilera são da geração pós-moderna, carente de sentido, de ideologia e de educação formal. O caminho aberto por Madonna em termos de comportamento feminino e homossexual deixou essa geração sem ter o que contestar. Quando Gaga diz que "nasceu assim", está falando desses jovens frutos do determinismo histórico de Fukuyama: tudo está feito, estamos presos a nós mesmos e nunca seremos sujeitos ativos sobre nada, porque o problema e a solução está sempre no outro. 

Enquanto Madonna olhava para as tendências musicais do futuro próximo, as engolia, misturava com suas questões existenciais e as regurgitava em algo aparentemente novo, as novatas do pop parecem fazer o caminho inverso e exatamente por isso são classificadas de plagiadoras. Se Gaultier traduzia Madonna em corpetes, Lady Gaga traduz as roupas de Alexander McQueen e as bases musicais de Madonna, do Ace of Base e do Depeche Mode em performance e música. 

Madonna e Michael Jackson eram os ícones que os outros analisavam, discutiam e tentavam decifrar. Lady Gaga e as outras são exatamente o contrário. Artistas carentes de sentido que buscam nos símbolos criados pelas gerações passadas uma substância para sua performance muitas vezes vazia e desesperada. 

Lady Gaga é boa. De todas as que estão aí, aliás, é a melhor. E isso se evidencia quando ela, assim como Madonna, fala daquilo que é sua essência, como em Beautiful and Dirty Rich, Poker Face, Telephone e Paparazzi. Mas se continuar olhando para os sintetizadores dos anos 1990, vai cansar logo. 

Quanto à carência de um ícone para chamar de seu do meu seguidor, recomendo que não tente sentir o que sentimos com Madonna e Michael Jackson, assim como foi inútil à minha geração tentar sentir o que eram os Beatles e os Stones no auge. Esqueçam as divas que não se esquecem da Madonna, vão a uma balada que toque LCD Soundsystem, Scissor Sisters, Cut Copy, La Roux, Hurts, Adele, MGMT, Gorillaz, Cee Lo Green, Janelle Mónae e sintam a boa música pop de sua geração.

2 comentários:

  1. Belissimo post amigo! Mas acredito que o background em que falas e que falta á Lady Gaga ja está estabelecido. Vivemos a época do diferente. Cada um lutando com sigo e com o mundo pra se encontrar em meio a um turbilhão de informações plásticas,moldadas e, muitas vezes inúteis que nos enchem a cabeça. Como então,ser vc msm, em meio a todas esas influências,que nem sempre nos levam ao melhor caminho?Como ser vc msm sem corresponder a nenhuma pressão social nem a modinhas sem sentido?

    Lady Gaga nos transmite reflexões como essas. Reflexões que nos proporcionam olhar para dentro de nós e descobrir do que realmente gostamos e quem realmente somos.Nao falo isso pq sou fã,mas pq a mensagem de auto-afirmação que essa artista fenomenal nos passa é irresistivelmente contagiante e linda.Me fez sentir orgulho de quem eu sou e me faz, a cada dia, buscar meus sonhos de maneira fiel a minha integridade e meus sensos ideologicos, sem hesitar em confirmar minha identidade e sem me fazer deixar de correr atras da minha ´´liberdade``. Liberdade de tudo aquilo que me impede de ser qm eu realmente sou, seja preconceitos ou padrõs contrarios aos meus. Tudo isso eu pude compreender dedicando-me a essa pessoa incrivel.

    Mas eu n sou cego.É impossivel n negar a influencias de artistas como David Bowie e Maddona nos trabalhos de Gaga. Acho incrivel a maneira como ela repensa o passado de maneira fashion, ressucitando tendencias de maneira revigorante.Ela tem sim suas ´´trend marks``. O ´´Hair bow`` e as plataformas sem salto são uma delas. Mas particularmente,nao acho o suficiente. Ela se diz uma ativista e luta pela ´´liberdade e os sonhos`` de sua geração. Ela realmente se importa com o publico gay e usa sua arte de maneira inteligente, transmitindo uma mensagem de respeito as diferenças e as liberdades individuais. Mas vamos dar tempo ao tempo. Afinal, com apenas 25 anos ela ainda tem muito pela frente. Quem sabe nos proximos anos Madonna finalmente baixe a guarda e Gaga,finalmente, usurpe o trono da rainha do pop?

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  2. realmente!
    eu, como fã de Madonna e cresci sob o olhar de sua geração, acredito que há sim referências.
    não tenho muito o que falar da Gaga, pelo fato de não acompanhá-la. Sim.. muito me agradam suas músicas, ritmos e letras. Mas não muito seu estilo.

    Mesmo sendo team Madonna, há um desgosto quando a Tia Madge exagera no visual. Mas isso já é uma questão de gosto ;)

    Tanto uma, quanto a outra fazem mto bem o que lhes cambem fazer: encantar-nos!

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