quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Boa noite, Tulipa!

Já era a vez naquela noite que Tulipa se levantava da cama. Também era a vez que acendia a luminária do quarto em menos de duas horas. Vendo seu reflexo do espelho e suspirou “Santo Deus! Será que não vou conseguir dormir de novo?”. E se levantou.
Ela já devia estar cansada a essa altura da noite. Afinal, acordou cedo. Tomou um banho de chuva sem querer no caminho do cursinho de espanhol. Revezou entre uma garfada e a digitação de um trabalho na hora do almoço. Antes das duas horas já estava na fila do Theatro para reservar um ingresso para um espetáculo, e no resto do dia ainda teve que aturar os comentários vazios dos colegas da Faculdade e a indiferença do colega da turma do fim do corredor. Isso já eram motivos mais que suficientes para chegar em casa, tomar um chá, esconder-se debaixo das cobertas e acordar só na manhã seguinte, beem tarde.
Mas não! Ela definitivamente não ia conseguir dormir, pelo menos não aquela noite. Quem sabe quando o dia estivesse amanhecendo ou de tarde depois do almoço no shopping que ela tinha marcado com a tia. Mas não aquela noite. Não antes do que iria acontecer depois que a cidade já estivesse acordada. Mas ela não sabia disso. O fato era que ela estava de pé às 4h30min da manhã e tinha que fazer alguma coisa até o sono vir, ou pelo menos até amanhecer.
Olhou o livro que estava no criado-mudo e lhe bateu um desânimo. Ligou a TV para ver se distraia um pouco e foi um desastre total, num canal um filme daqueles que ela só via junto com TODAS as amigas que tinha na agenda do celular, de tão aterrorizante que era. Partiu então pro próximo plano, comer! Sim, assaltar a geladeira. Pão, presunto, queijo, margarina e está feita a torrada mais perfeita do mundo segundo Tulipa, a dela.
Sentou na escrivaninha do quarto e se pôs a devorar aquilo que no dia seguinte seria o motivo para uma boa caminhada. Entre uma mordida e outra se distraiu mexendo nas mensagens do seu celular. Releu uma mensagem de uma amiga que tinha viajado pra outro Estado e que viria no próximo feriadão, outra de um ex-vizinho que queria saber quando que eles iriam marcar um confronto no xadrez, e por fim a mensagem que recebeu do ex-namorado nas férias: ele pedindo um tempo depois que ela viajou no dia que do aniversário de um mês de namoro. “Tá! Eu sei que eu errei em não avisar que eu ia embora naquele dia. Sei que errei quando ele chegou aqui em casa com um filme pra gente assistir e eu já estava com as malas prontas para viajar. Mas bem que ele podia entender né! Eu nem ia demorar tanto lá, um mesinho e eu já tava de volta. Simples!”. Era o que ela pensava, mas não foi bem o que ele pensou na hora que encontrou a namorada pronta para pôr o pé na estrada, e não foi o que ele pensou nesse mesinho que ela passou longe. 
Ele, o colega da turma do fim do corredor. O da indiferença. É claro que eles conversam, e bastante até, mas só quando se encontram por acaso no corredor ou nos intervalos das aulas. Mas os assuntos não são nada animadores. De nada adiantou as mil desculpas de Tulipa. “Ou eu paro de pensar nessa criatura dos infernos ou...”, mal terminou de fechar a boca e o celular que ainda estava na sua mão tocou. 
     Quando ela foi pensar o que todo mundo pensaria ao ver o seu celular tocar as 6h17min da madrugada, “Quem será há essas horas?”. Leu o nome de quem estava ligando. Era ele. “Ele? AI MEU DEUS!”, disse enquanto aquelas três letras do apelido dele brilhavam no visor, e alí ficou ela olhando pro celular tremelicando na mão. Até que atendeu e falou um alô todo feliz. Ele do outro lado respondeu: “Oi! Desculpa ligar essa hora da madrugada, se bem que já é quase de manhã. Mas é que eu não consegui dormir nada, passei a noite pensando em na gente. Te acordei né?”. E ela, depois de se acomodar bem na cama, de ajeitar o travesseiro e fingir um bocejo, disse com aquela voz de quem arrecém está acordando: “Ahhhh, mas não tem problema! Eu já tava quase levantando mesmo”.
 

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